3 de jan. de 2012

Provocações com Carlos Drummond de Andrade.

Cronista, Contista ou Poeta: qual o melhor Carlos Drummond de Andrade? Pergunta desnecessária, resposta pra crítico especializado em desnecessidades. Aqui o que importa é o que, pra mim, é a maior marca do itabirano: provocador.

Hoje ele aparece por aqui com seu senso crítico aguçado na crônica J.C. Eu Estou Aqui, escrita entre 1970 e 1971, quando a música "Jesus Cristo", do Roberto Carlos, gravada no disco de 1970, fazia sucesso.

Sob o viés da religiosidade, Drummond não perdoa o futuro Rei, alfineta os especialistas críticos de suas obras,passeando pelo eterno dilema entre o dar mais importância ao que os outros pensam sobre você ou com a consciência de si mesmo, fala - há 40 anos, como se fosse hoje - que a sofisticação dos meios de comunicação não melhorou a relação entre as pessoas, cutuca com a devida sutileza a Ditadura.

Drummond daria vários shows stand-up, sem perder o refinamento, a sutileza e o respeito pela inteligência alheia. Confere aí: 

J.C. Eu Estou Aqui

Jesus Cristo, eu estou aqui. Pode parecer uma petulância de minha parte chamar Sua atenção para este fato aparentemente insignificante: o estar eu aqui neste escritório, e não no Bar-Restaurante Tabu da Barra ou em qualquer outro ponto do território nacional, do qual não me afasto por princípio. Hesitei longamente antes de Lhe fazer esta comunicação. Dizia a mim mesmo: Tem propósito informar Jesus Cristo que eu estou aqui?

Ele já sabe (refletia) e não deve andar preocupado com a minha localização na Guanabara. Procuram-nO antes os albergues-do-vento que costumam hospedar minh'alma, e estes às vezes são tão obscuros que, sinceramente, eu não saberia indicar nem a latitude e longitude, nem o aspecto geral do sítio onde a alma costuma pousar, não raro para esconder-se de si mesma. Claro que, fisicamente, em algum local determinável devo estar, e Jesus Cristo tem mais que fazer do que inteirar-se desse local, como se fora eu um subversivo e ele um órgão supremo de segurança.

Depois (continuei matutando), se todos os cristãos erguerem os braços e olhos para o céu, como eu agora estou erguendo, para anunciarem o recanto do globo onde se encontram no momento, que pensará Jesus Cristo? Que poderá pensar, senão que estamos todos doidos ou, no mínimo, possuídos de lamentável comichão exibicionista? Por muito bem intencionado que esteja Ele com relação a nossas ilustres pessoinhas, a natureza e a repetição coral, mundial da notícia, hão de molestá-lO, pois ninguém, nem mesmo Deus, suportaria a vociferação bilionar de eu estou aqui, eu estou aqui, eu estou aqui. Estou aí, e daí? É o caso de o Senhor nos responder. O Senhor decerto nos perdoará, mas conservando de nós uma triste impressão.

Contudo, Jesus Cristo, permita-me dizer-Lhe que eu estou aqui. Cheguei à conclusão de que devia mandar-Lhe este aviso, para alertá-lO sobre a situação de um ente comum nas atuais condições de vida no planeta a que o Senhor baixou um dia para redimir-nos. Estou aqui, mas é como se não estivesse em parte alguma, de tal modo fui despersonalizado por uma série de fenômenos que tornaram irrelevante, já não digo o estar em alguma parte, mas o ser alguém um ente definido e não outro qualquer, desde sarcomastigóforo, que o livro garante ser espécie mínima do protozoário, até o proboscídeo, hoje representado pelo simpático elefante. Ou mesmo objeto. Sou pessoa ou tamborete, gente ou panela de apito, sou folha de papel, relógio, cadarço, roda de carro, que é que sou afinal? Inda se fosse só isto ou aquilo. Mas sucessivamente me transformam em outra coisa ou coisa nenhuma. Pintam-me de vermelho ou azul, dissolvem-me, condensam-me, baralham-me, anulam-me. Por toda parte ouço ordens, advertências, conselhos, intimações, proibições. Faço o que não quero, se faço; em geral, não me deixam fazer nada, a não ser coçar o nariz. Dizem que sou massa. Mas existe massa, Jesus Cristo, ou criatura diferentes umas das outras? Dizem que a comunicação é chave da vida, mas por que cada dia nos comunicamos mais dificilmente uns com os outros, e conosco mesmo, à medida que os meios de comunicação se tornam mais refinados e poderosos?

Olhe, Jesus Cristo, não reclamo honras especiais, comidas especiais, tapetes especiais, nem estou nesta jogada para atrair sobre mim os holofotes da publicidade. Pelo contrário. Até corro o grande risco de perder o anonimato de átomo, e despertar a atenção preferencial dos poderes que regem o meu destino de átomo, com as consequências que é fácil prever (quando se fala em consequências, já se sabe que são funestas). 

Queria só uma coisa. Que o Senhor (ia dizer Você, mas ainda não estou de todo habituado ao novo estilo) faça alguma coisa para salvar outra vez o Homem, tomando conhecimento de que ele, eu, nós todos, estamos aqui muito sem jeito, sem rumo e sem sentido. Quando é que o Senhor volta, Jesus Cristo? Lembre-se de que eu estou aqui aqui aqui. (E o meu caro Gilberto Mendonça Teles, estudioso da estilísticas da repetição, que me perdoe mais esta).  

(Publicado no livro "O poder ultrajovem" de 1972)

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