Essa é a capa da edição de 27 de janeiro de 1982 da Veja com a histórica reportagem sobre a morte da cantora intitulada "O amargo brilho do pó". No dia 27, oito dias depois do fim, o choque e as lágrimas dos menos sensíveis já haviam dado lugar ao início de um julgamento moral.
Elis não morreu de "causa natural", como já havia sido divulgado na noite daquele 19 de janeiro. O laudo médico atestou que a causa da morte foi overdose por mistura de cocaína e álcool.
Como o diretor do IML na época era o famoso legista Harry Shibata, com muitos serviços prestados ao regime militar, criaram uma guerra pela honra ou desonra do nome de Elis. Chegaram a acusar o legista de vingança contra o último namorado de Elis, Mac Dowell, que foi um dos advogados envolvidos na condenação da União pela morte do jornalista Vladimir Herzog (Herzog foi morto pelos militares mas o laudo de Harry Shibata o deu como suicida).
Elis era ou não era usuária de drogas? Usava tanto a ponto de provocar a própria morte? E se causou, foi acidental ou proposital? Se foi proposital, porque resolveu se matar?
Muitos sentenciaram. Além da memória dela, os filhos foram os que mais sofreram. Numa entrevista publicada no último sábado, 14, no Estadão, Pedro Mariano tocou no assunto:
Quando você descobriu o tamano da Elis Regina? Infelizmente quando ela morreu. Acordei no dia seguinte e fui para a escola, o Pueri Domus. E me vi dando entrevista coletiva com 6 anos de idade. Ouvia todo tipo de pergunta, chamaram minha mão de um monte de coisas e eu matando tudo no peito. Aprendi muito com o meu pai a lidar com isso. Ele perguntou se eu tinha certeza de que queria ir para a escola, e avisou: "Vai acontecer isso, isso e isso". E eu: "quero voltar pra escola". Me meti em muita briga por causa disso. Muitos anos depois eu ainda tinha pouca tolerãncia com o assunto. Eu entrava na classe e minha professora olhava pra mim e começava a chorar. Até então era a dona Elis, minha mãe. No dia seguinte à morte, virei o filho da Elis Regina e comecei a ver o tamanho da encrenca, muitas vezes virei um bibelô nas mãos de pessoas maldosas. Aí comecei a criar meus dispositivos de segurança para me proteger das maldades".
E o que não acontece em 30 anos, não é? Hoje quando se fala na morte de Elis Regina, praticamente ninguém toca no assunto: se foi cocaína e álcool, acidental ou suicídio é ignorado. Sobreviveu a artista. E sobreviveu maior do que era. Um passeio por jornais e revistas da época, constata-se que ela era, sim, respeitadissima e admiradissima pelo público e por outros artistas mas, também, bastante questionada. Era tida por muitos críticos como muito técnica e pouco emotiva. Hoje, ninguém cogita discutir isso.Até porque, Elis foi eternizada como a melhor cantora brasileira de todos os tempos.
1982... Há 30 anos. Ah, 30 anos!

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