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19 de jan. de 2012

Elis Regina em: 1982... Há 30 anos. Ah, 30 anos!

Elis Regina teria se matado, aos 36 anos. Aos poucos, ela foi sendo enterrada. Muita coisa aconteceu nesses últimos 30 anos. Hoje ela está vivíssima.


Essa é a capa da edição de 27 de janeiro de 1982 da Veja com a histórica reportagem sobre a morte da cantora intitulada "O amargo brilho do pó". No dia 27, oito dias depois do fim, o choque e as lágrimas dos menos sensíveis já haviam dado lugar ao início de um julgamento moral.

Elis não morreu de "causa natural", como já havia sido divulgado na noite daquele 19 de janeiro. O laudo médico atestou que a causa da morte foi overdose por mistura de cocaína e álcool. 

Como o diretor do IML na época era o famoso legista Harry Shibata, com muitos serviços prestados ao regime militar, criaram uma guerra pela honra ou desonra do nome de Elis. Chegaram a acusar o legista de vingança contra o último namorado de Elis, Mac Dowell, que foi um dos advogados envolvidos na condenação da União pela morte do jornalista Vladimir Herzog (Herzog foi morto pelos militares mas o laudo de Harry Shibata o deu como suicida).

Elis era ou não era usuária de drogas? Usava tanto a ponto de provocar a própria morte?  E se causou, foi acidental ou proposital? Se foi proposital, porque resolveu se matar?

Muitos sentenciaram. Além da memória dela, os filhos foram os que mais sofreram. Numa entrevista publicada no último sábado, 14,  no Estadão, Pedro Mariano tocou no assunto:

Quando você descobriu o tamano da Elis Regina? Infelizmente quando ela morreu. Acordei no dia seguinte e fui para a escola, o Pueri Domus. E me vi dando entrevista coletiva com 6 anos de idade. Ouvia todo tipo de pergunta, chamaram minha mão de um monte de coisas e eu matando tudo no peito. Aprendi muito com o meu pai a lidar com isso. Ele perguntou se eu tinha certeza de que queria ir para a escola, e avisou: "Vai acontecer isso, isso e isso". E eu: "quero voltar pra escola". Me meti em muita briga por causa disso. Muitos anos depois eu ainda tinha pouca tolerãncia com o assunto. Eu entrava na classe e minha professora olhava pra mim e começava a chorar. Até então era a dona Elis, minha mãe. No dia seguinte à morte, virei o filho da Elis Regina e comecei a ver o tamanho da encrenca, muitas vezes virei um bibelô nas mãos de pessoas maldosas. Aí comecei a criar meus dispositivos de segurança para me proteger das maldades".

E o que não acontece em 30 anos, não é? Hoje quando se fala na morte de Elis Regina, praticamente ninguém toca no assunto: se foi cocaína e álcool, acidental ou suicídio é ignorado. Sobreviveu a artista. E sobreviveu maior do que era. Um passeio por jornais e revistas da época, constata-se que ela era, sim, respeitadissima e admiradissima pelo público e por outros artistas mas, também, bastante questionada. Era tida por muitos críticos como muito técnica e pouco emotiva. Hoje, ninguém cogita discutir isso.Até porque, Elis foi eternizada como a melhor cantora brasileira de todos os tempos.

1982... Há 30 anos. Ah, 30 anos!

17 de jan. de 2012

1982... Há 30 anos. Ah, 30 anos!

"Quatro pessoas num mesmo dia me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade, estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave..." (trecho de "Fazer 30 anos" de Affonso Romano de Sant'Ana).
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Eu também estou às vésperas de fazer 30 anos. Não vejo nada de, exatamente, grave nisso. Talvez, tome um sorvete e compre um jornal mas sem querer parecer que trata de um dia "como qualquer outro". Dia que se completa 30 anos não pode dia "como qualquer outro". Trinta anos...olha...não é pouca vida, não, principalmente, quando a gente não perde de vista que a espécie humana vive muito poucos anos. Inclusive, a Dercy Gonçalves e o Oscar Niemeyer.

Bem... apesar dos poucos anos pela frente - mesmo, se mais 80 - resolvi olhar um pouquinho pra trás; conhecer um pouco dos que faziam e o que faziam por aqui no ano em que eu nasci.

1982...ano marcado, também, pelas últimas Eleições durante o regime militar no Brasil; a primeira eleição direta pra Governador desde 1960. Em São Paulo um dos candidatos foi o Luiz Inácio Lula da Silva. Há exatos 30 anos, em 17 de janeiro de 1982, a Folha publicou trechos de uma entrevista com ele, quando ainda nenhum partido havia decidido seus candidatos. Reparem que o discurso utilizado por ele durante mais de duas décadas já estava muito bem decorado. Um discurso arrastado até 2001 quando o publicitário Duda Mendonça levou o PT à manicure, à pedicure, ao cabelereiro, ao maquiador e ao cirurgião plástico. Hoje, Lula e o PT não se reconheceriam no espelho. Confira:

"O PT manterá sua linguagem e sua cobrança de oposição sem abrandamento, em função de uma pacificação geral, um entendimento que não existe. Pretendemos propor um levantamento de fundos para a campanha para mobilizá-la. Não podemos ficar a zero, mas não pretendemos entrar nessa brincadeira estapafúrdia de que as eleições exigem fortunas. Uma campanha exige, acima de tudo, um trabalho de conscientização. Não pretendemos gastar nem um décimo do que os candidatos dos outros partidos vão gastar em São Paulo, por exemplo. Não temos.

Recuso-me a tratar o PT como um partido nanico. Ter 30, 50, 150 deputados não quer dizer força ou grandeza de um partido político, porque a última eleição foi no bipartidarismo e teria que dar isso aí. Vamos conferir em 15 de Novembro.

Tenho sabido de críticas feitas a mim, insinuações de que o Lula não seria bom candidato a governador porque não tem cultura, não é preparado. É engraçado como as pessoas caem em contradição. Acho errado uma pessoa que se considera acima do nível do povo brasileiro querer representá-lo."

Como o mundo muda em 30 anos, não?